2. ENTREVISTA 25.7.12

ANTNIO PATRIOTA - "DIPLOMACIA NO  PUBLICIDADE"

Ministro das Relaes Exteriores diz que Dilma d uma marca pessoal  poltica externa e refuta a timidez do Itamaraty
 por Adriana Nicacio 

RITMO NOVO - Ministro no aceita crtica de que a poltica externa ficou mais tmida depois de Lula

Sob fogo cerrado nas ltimas semanas, principalmente pelo papel confuso que o Brasil cumpriu na crise do Paraguai, o ministro das Relaes Exteriores, Antnio Patriota, est convicto de que no havia alternativa alm de afastar o pas do Mercosul e da Unasul. Nesta entrevista  ISTO, o chanceler diz que a parceria com a Venezuela  importantssima para o bloco e que vinha sendo costurada h mais de uma dcada. Patriota ainda pontua as diferenas na poltica externa do governo Lula e da presidenta Dilma Rousseff. O Brasil, segundo ele, mantm o papel de liderana internacional, mas de forma mais discreta. Dilma teria dado uma marca muito pessoal, decidindo priorizar acordos nas reas de cincia, tecnologia e inovao. Outra importante diferena  a postura de distanciamento em relao s convulses sociais no mundo rabe. O Brasil se solidariza com movimentos de grupos que foram excludos dos processos polticos, mas h aes violentas que geram crise, ponderou.

"Existe uma marca muito pessoal da presidenta Dilma na poltica externa, com sua nfase na tecnologia"

"No h mais espao para aventuras antidemocrticas na nossa regio. No caso do Paraguai houve ruptura"

Isto - O Brasil no se equivocou ao afastar o Paraguai do Mercosul?

Antnio Patriota - No h mais espao para aventuras antidemocrticas na nossa regio. Ns, membros do Mercosul, subscrevemos o Protocolo de Ushuaia que  um compromisso com a democracia. No caso do Paraguai, o juzo poltico no observou o amplo direito de defesa. E isso, na opinio unnime dos membros do Mercosul e da Unasul, configurou uma ruptura do processo democrtico.  

Isto - A deciso no foi tomada apenas para favorecer a Venezuela? 

Antnio Patriota - Isso  uma incompreenso dos fatos. As decises relacionadas com o Paraguai tm a ver com o rito sumarssimo no Paraguai de destituio do presidente. 

Isto - Mas o resultado concreto no  que a Venezuela conseguiu seu ingresso no bloco com a sada do Paraguai, que vetava sua participao? 

Antnio Patriota - O ingresso da Venezuela  discutido desde o incio da dcada. No ano passado, na Cpula de Montevidu, j se vinha discutindo como fazer para promover a participao plena da Venezuela. Agora, por uma declarao dos presidentes do Brasil, da Argentina e do Uruguai, a Venezuela ser incorporada oficialmente ao Mercosul em 31 de julho. 

Isto - Essa parceria com a Venezuela de Hugo Chvez  benfica para o Brasil? 

Antnio Patriota - A Venezuela  o quarto PIB da Amrica do Sul, tem a quarta populao da regio e uma economia dinmica. Com a sua entrada, o Mercosul se estender da Patagnia ao Caribe. A reserva petrolfera venezuelana est entre as maiores do mundo, de modo que  um ganho enorme. O Brasil est se transformando num dos principais parceiros da Venezuela em matria de comrcio, investimentos em infraestrutura, cooperao na rea agrcola e essa rede de cooperao econmica dever aumentar ainda mais.  uma evoluo interessante na histria recente da Venezuela, que sempre foi um pas muito voltado para os mercados consumidores do seu petrleo, o Norte.  

Isto - E os paraguaios como ficam? 

Antnio Patriota - No tomaremos nenhuma deciso que prejudique a populao paraguaia ou qualquer medida de natureza econmica. Ficou claro que prosseguiro os programas de cooperao com o Paraguai, por exemplo, sobre o Fundo de Convergncia Estrutural do Mercosul (os recursos somam anualmente US$ 100 milhes e o Paraguai tem direito a 48% deles). 

Isto - O sr. tem sido criticado por uma gesto discreta no Ministrio das Relaes Exteriores. O que acha disso? 

Antnio Patriota - Diplomacia no  publicidade. Diplomacia  abertura de canais, de dilogos que promovam o interesse do Brasil. E, hoje em dia, os interesses do Brasil so nacionais, mas tambm so interesses pelo funcionamento do sistema internacional. Ns queremos um sistema internacional que propicie a cooperao e a estabilidade, a paz e a previsibilidade. No queremos o mundo multipolar da confrontao ou da dificuldade de comunicao. Queremos que exista uma governana que contribua para que encontremos solues equnimes, levando em considerao diferentes interesses, em particular os dos pases menos desenvolvidos.  

Isto - A poltica externa do governo Lula no dava maior projeo ao Brasil?

Antnio Patriota - Temos projeo sim. Existe uma marca muito pessoal da presidenta Dilma que  a nfase em cincia, tecnologia e inovao, presente em todos os comunicados conjuntos e nas visitas que ela realiza. Na China, esse tema ganhou nfase. Alm disso, h o programa Cincia sem Fronteira que vem sendo levantado em quase todas as visitas bilaterais, sobretudo com parceiros mais desenvolvidos, em que h um ganho evidente. Outra caracterstica das viagens presidenciais tem sido uma incorporao da dimenso empresarial de apoio  presena do setor privado brasileiro em diversas partes do mundo.  

Isto - O que h de concreto nessa rea? 

Antnio Patriota - O importante  a diversificao da pauta de exportao, a busca de parcerias que sejam mutuamente benficas, que contribuam para que ns no nos apresentemos apenas como consumidor de commodities.  preciso que haja uma pauta de valor agregado nas exportaes brasileiras e investimentos produtivos, que contribuam para a competitividade industrial brasileira.  

Isto - Que novas relaes o Brasil quer construir?

Antnio Patriota - Um exemplo  a relao com a sia, com os pases do Sudeste Asitico, com os quais ns vamos assinar tratado de amizade e cooperao. Ser o primeiro passo para uma maior aproximao comercial de um agrupamento que tem em conjunto um PIB mais ou menos comparado com o Brasil, mas uma exposio maior no comrcio internacional.  

Isto - O Brasil teve grande destaque na consolidao dos Brics e no fortalecimento do G-20. Hoje, o Pas ainda desempenha um papel de liderana? 

Antnio Patriota - O Brasil demonstra liderana em inmeras reas. Um bom exemplo  a Rio+20. Quer outro exemplo? Braslia j  um dos centros de atividades diplomticas mais dinmicos no mundo emergente. As estatsticas mostram bem esse cenrio. No ano passado, recebi em Braslia, no ano inteiro, 30 chanceleres estrangeiros. Este ano, at julho, j recebi 25.  uma atividade diplomtica intensa. O mesmo acontece com a presidenta Dilma, que recebeu, em 2011, 16 chefes de Estado e em 2012 j recebeu 15. Isso sem falar em todas as reunies bilaterais que ela manteve  margem da Rio+20, que inclui encontros, por exemplo, com os presidentes da Frana, da China, de Cuba e da Dinamarca.  

Isto - Nem todas as avaliaes foram positivas sobre a Rio+20. Alguns setores da sociedade civil chamaram a conferncia de Rio menos 20. 

Antnio Patriota - A avaliao que eu fao  extremamente positiva. A Rio+20  a mais participativa das Naes Unidas, com plena participao da sociedade civil, alm da negociao do documento final, que pode ser considerado um xito por ter sido concludo antes do incio da cpula. Quando assistimos a isso? Em Copenhague? Em Cancn? Onde assistimos a certo descontrole do processo negociador? Na Rio+20 ns mantivemos um processo sob controle e foi considerado satisfatrio. Mais do que satisfatrio, o documento aprovado foi um marco.  

Isto - Comparando-se com o governo Lula, porm, parece que a poltica externa ficou mais tmida. 

Antnio Patriota - O Brasil desenvolveu uma rede extensa de embaixadas, estabeleceu relaes diplomticas com todos os membros das Naes Unidas, dispe de mecanismos de aproximao de diferentes grupos de pases. Alm do esforo de integrao no Mercosul e na Unasul, o Brasil se coordena com a ndia e frica do Sul no contexto do Ibas. Existem as cpulas da Amrica do Sul e dos pases rabes, que devero se reunir no segundo semestre, e as cpulas da Amrica do Sul e da frica, que tambm devem se reunir em novembro.  

Isto - Por que o Brasil mantm uma postura cautelosa, quase em cima do muro, com relao aos levantes no mundo rabe? 

Antnio Patriota - Ns tivemos um evento envolvendo a dispora de origem rabe no Brasil e a dispora de origem judaica, at para debater um pouco a situao Israel-Palestina e a situao do mundo rabe. Um dos palestrantes usou uma imagem interessante ao falar da primavera rabe. Disse que talvez seja menos uma primavera e mais uma grande tempestade de areia. O mundo rabe passa por uma tempestade de areia, que ns no sabemos exatamente como vai ficar quando a areia assentar. O Brasil obviamente se solidariza com os movimentos por maior participao de grupos que foram excludos dos processos polticos nas ltimas dcadas. Mas tambm existem aes violentas, que geram crise e instabilidade.  

Isto - O Brasil foi um dos cinco pases que se abstiveram quanto  interveno militar na Lbia.

Antnio Patriota - A crise na Lbia nos preocupou. Agora a Lbia est se encaminhando para o processo de transio democrtica, que ns apoiamos, inclusive com a nomeao de um novo embaixador para Trpoli (Afonso Carbonar), depois de 15 meses de a embaixada ter sido fechada no pas. Hoje, a Sria vive uma situao de grave indefinio, o que  um fato muito preocupante. Ns apoiamos os esforos do ex-secretrio-geral da ONU Kofi Annan e manifestamos uma grave preocupao quanto ao uso de armamento pesado para represso de manifestantes por parte do governo Assad (ditador srio Bashar Al Assad). 

Isto - E a relao com os Estados Unidos? O Brasil est cada vez mais distante dos americanos? 

Antnio Patriota - No sei se a afirmao  correta. Nos Estados Unidos, a presidenta Dilma se rene no Frum dos Altos Executivos dos dois pases, juntamente com o presidente Barack Obama. Em abril, na visita dela aos EUA, foi criado um grupo sobre inovao, sob a gide da Comisso de Cooperao Cientfica Tecnolgica. A relao com os Estados Unidos vem se desenvolvendo com incrementos de atividade econmica. A balana comercial tem conhecido sucessivos recordes, s vezes com supervit, s vezes com dficit, mas atingindo nmeros cada vez maiores. Foi criado um dilogo global entre os dois chanceleres. Eu e a Hilary Clinton temos nos falado frenquentemente e sistematicamente para comentar a realidade internacional. A relao  muito prxima e tem um componente de cooperao econmica e comercial forte, tradicional, e que hoje em dia se aprofunda e se amplia. 

